|
COMENTÁRIO
Um estudo da distribuição de canções de Jacques Brel segundo a
língua em que foram reinterpretadas é importante para compreender
o grau de universalidade obtido ao longo dos anos pelo trabalho do
nosso grande autor belga. Na verdade, a tradução para uma língua
diferente da original implica a vontade de chegar a um público mais
amplo, e não francês, a que é dado o direito e a oportunidade de
conhecer e apreciar as canções de Jacques Brel.
Isto é obviamente muito importante, porque sabemos que o sucesso
das canções de Brel depende, em igual medida, da beleza da música
e do texto. Compartilhar textos de poesia por uma audiência de
sensibilidade e culturas diversas sobre todo o planeta é uma operação
que, mesmo realizada inicialmente com um inequívoco propósito
comercial, é de grande valor artístico e cultural.
Esta afirmação é confirmada pelo facto de, tanto quanto me é
dado a entender, a maior parte das traduções é certamente fiel ao
texto original. Obviamente eu não posso falar sobre línguas
particularmente difíceis como a finlandesa ou hebraica, mas acho
que isso é verdade para a maioria das línguas conhecidas e faladas
como o Inglês, o Espanhol, o Alemão e o Italiano. Entretanto,
algumas traduções em Inglês de Rod McKuen, que eu considero como
realmente trágicas, reuniram uma série de enormes sucessos
comerciais (benéfico para ele) como “Seasons In The Sun”. No
entanto, o seu significado e qualidade artística está muito longe do
original de Jacques Brel.
Se percorrermos a lista de línguas nas quais são cantadas as versões
de Brel, vemos em primeiro lugar, que estamos perante versões de
canções em 39 idiomas diferentes, além das versões instrumentais
e vocais. Escusado será dizer que a linguagem mais utilizado é o
francês. O número de versões cantada nesta língua é
predominante uma vez se adicionam as versões dos intérpretes Francófonos.
Isto demonstra que muitos artistas de outros países preferiram
cantar de novo as canções no texto original, sem dúvida, para
expressar o respeito pela composição e a métrica de Brel. Em
alguns casos, o intérprete assume o risco de mostrar o seu
imperfeito domínio da pronúncia francesa, mas isto é
frequentemente compensado por uma grande fidelidade ao original, não
só no texto, mas também na emoção.
Sem
surpresa, o maior número de traduções é em Inglês: língua
“mundial” por excelência. Seguem-se depois três línguas
europeias dos países que fazem fronteira com a França e, portanto,
culturalmente próximos: o alemão, holandês e italiano. Se é
compreensível que muitas vezes são em holandês, a língua falada
na Holanda e na parte flamenga da Bélgica, em que Brel
reinterpretou algumas de suas canções, fiquei realmente surpreso
com o sucesso que a música de Brel teve na Alemanha e na Áustria.
Ainda hoje ela está viva com intérpretes como Klaus Hoffmann (detentor
do recorde absoluto das versões: cerca de 78), Michael Heltau e
Maria Bill.
No
que respeita à Itália, o tempo é que faz a diferença: Brel teve
um grande sucesso nos anos 70, mas agora é pouco conhecido e o seu
legado é mais usado por cantores
confidenciais. Entretanto na Alemanha, em 2006, foi lançada
uma compilação intitulada “Superstars singen Brel” (Superstars
cantam Brel).
Nesta
classificação, após o italiano, há algumas línguas “exóticas”
como o polaco (cerca de 81 canções traduzidas), sueco, finlandês
e hebraico. Nas últimas três línguas, acho que foi a realização
de um musical, inspirado no “Jacques Brel Is Alive and Well and
Living in Paris” traduzido para a língua local, mas que foi de
fundamental importância para colocar num plano mais popular a música
de Brel.
Um
número muito significante de versões é as que foram feitas na
forma instrumental, o que elimina o poder do texto para exaltar a
beleza da melodia: tratam-se de peças, na maioria das vezes
realizadas de forma jazziística
ou clássica, mas também com versões orquestradas com
acordeão em primeiro plano como instrumento solista. Assim sendo,
somos confrontados com mais uma demonstração desta união de
culturas,”sofisticado” e “popular” que Brel foi capaz de
fazer com o seu trabalho. Uma demonstração que mostra ainda mais
claramente, e com a qual eu acredito, a prova principal desta
classificação por idioma: a forte presença das línguas regionais
(catalão, frísio, corsa ...) quando não dialectos, sobretudo
italianos.
Há
cerca de 13 dessas línguas diferentes e vários dialectos. Para mim
isso tem um significado muito específico: a música e as letras das
canções de Jacques Brel são, pela sua natureza intrínseca,
destinadas a um público popular: tanto a música como os textos têm
uma simplicidade que proporcionam prazer a um público mais amplo,
em alguns casos o texto pode vir mesmo e incentivar o uso das línguas
vernáculas.
|
|