JACQUES BREL

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Página posta em dia em 14.02.2010

 

 

 
Dino - Rodolphe - J. Ramón

©2006-2010 Dino Gibertoni, Rodolphe Guillo, José Ramon San Juan & Sérgio Paixão

A criação e os conteúdos deste site, onde não especificado, são de  Dino Gibertoni & Rodolphe Guillo. Todos os conteúdos podem ser livremente utilizados desde que  indiquem obrigatoriamente a sua fonte.

Não é necessário lembrar que embora este site seja dedicado às versões de Jacques Brel, quem quiser  aprofundar o conhecimento sobre o grande artista belga deve primeiro ouvir as músicas originais.

O melhor intérprete das canções de Jacques Brel ainda é com efeito, e sob qualquer forma, Jacques Brel, porque suas canções tornaram-se intensamente vivas quando ele as cantou: elas nasceram com o seu suor, os seus nervos, a sua energia vital, tanto nos espectáculos em  palco como nas gravações de estúdio. Por muito bons que eles sejam, e são poucos, os intérpretes que homenagearam Brel nunca poderiam atingir o mesmo nível de ligação ao texto e à excelência da interpretação e, portanto, eu aconselho a ouvi-los numa segunda fase, depois de ter assimilado a arte do inimitável Grand Jacques.

Portanto, para ajudar amigos que hoje ainda, infelizmente, não têm nenhuma oportunidade de ouvir  Jacques Brel, eu tentei fazer uma espécie de guia introdutório para conhecê-lo, através de sua canções.

Na prática, concebi algumas listas de escuta, cada uma das quais contém um número variável de canções, de 4 ou 5 a mais de 20. Estas listas foram desenvolvidas a partir dos principais temas dos textos de Brel (amizade, infância, morte ...) ou simplesmente sobre o tipo de atmosfera e sentimentos que são evocados pelas canções em termos da sua unidade musical e lírica. No entanto, não se trata de uma classificação unívoca e o resultado ser apenas uma canção. Quando a canção possa suscitar emoções diversas ou prestar-se a interpretações diferentes, pode ser encontrada em mais de uma lista de escuta. Isso resulta da mesma maneira que, ao longo do tempo, essas listas podem alterar o conteúdo, mudar de nome e especialmente, enriquecer-se com base em novas abordagens da leitura de textos Brel você possa sugerir.

Dino Gibertoni

Tradução em português - Janeiro de 2010

 

As peças referidas nas listas de escuta estão rigorosamente em ordem alfabética.

Se você quiser participar na concepção dessas listas, envie um e-mail para Dino, com todos os detalhes e se possível um texto introdutório por mais modesto que seja.

 

1 - MELÓDICA

2 - SATÍRICA

3 - FURIOSA

4 DOUCE FRANCE

5 - A MORTE

6 - ANTIMILITARISTA

7 - A TERNURA

8 - A ESTUPIDEZ

9 - BEM PENSANTE

10 - POPULAR

11 - FLAMENGA

12 - A INFÂNCIA

13 – A AMIZADE

14 - SIMBOLISTA

15 - LA SOLIDÃO/ABANDONO

16 – O HOMEM QUE A AMAVA AS MULHERES

 

1 - MELÓDICA - TOPO DA PÁGINA

Jacques Brel escreveu textos tão belos, poéticos e modernos que muitas vezes nos esquecemos de falar sobre sua música. A música, no entanto, pela sua língua universal é o primeiro elemento que cativa o ouvinte, especialmente quando, por razões de linguagem, ele é incapaz de compreender plenamente o texto. Por esta razão, a primeira lista de escuta é a que contém as canções mais melódicas de Brel. Melodias que cativam de imediato pela sua simplicidade e beleza, e que pode facilmente ficar no ouvido originando depois o desejo de partir para o conhecimento dos textos e entender o que dizem as palavras que casam tão bem com a música.

Nas suas canções Brel escreveu sempre o texto, mas nem sempre escreveu a música. Na verdade, às vezes, a assinatura é a dos seus colaboradores, especialmente Gerard Jouannest. Os autores ou co-autores da música são por consequência músicos que trabalharam numa extrema simbiose com Brel. Eles acompanharam-no  nas suas longas digressões e por isso eles estavam à altura de criar melodias capazes de abranger todas as nuances dos textos e das interpretações de Brel.

Nesta lista de escuta, encontramos as mais famosas canções de Brel como “Ne me quitte pas” e “A canção dos velhos amantes”, algumas canções mais intensas do ponto de vista emocional (“A minha infância “ “Fernand”,”Ver um amigo chorar”) e algumas jóias pouco conhecidas (“L’Ostendaise”, “O próximo amor”, “Eu não sei”). Eu recomendo especialmente “Marieke” que gosto mais e mais a cada escuta.

1. Les amants de cœur

13. J'arrive

2. Le bon dieu

14. Je ne sais pas

3. La chanson des vieux amants

15. Marieke

4. Les cœurs tendres

16. Mon enfance

5. Les désespérés

17. Ne me quitte pas

6. Dors ma mie

18. L'Ostendaise

7. La Fanette

19. Le plat pays

8. Fernand

20. Le prochain amour

9. Fils de...

21. Quand on n'a que l'amour

10. Il nous faut regarder

22. La tendresse

11. Isabelle

23. Voir un ami pleurer

12. J'aimais

 

 

2 - SATÍRICA - TOPO DA PÁGINA

Uma das características mais típicas dos textos Brel é a minuciosa observação, realista e, por vezes, implacável de certos tipos e comportamentos humanos, que ele abertamente desprezava ou reprovava. Esta opinião está reflectida num conjunto de canções que se mostra ainda hoje, mesmo a uma distância de mais de 40 anos, memorável pela sua subtileza e pela capacidade de representação tão sintética e infalível.

Esta lista de escuta poderia ser definida como “tipos humanos”, porque em diferentes canções Brel refere- se directamente a determinadas categorias de personalidade (burgueses, fanáticos, Flamengos...). Uma outra abordagem é a da analogia com o comportamento de animais definidos (macacos, ovelhas, cavalos). Além disso, por vezes Brel, mesmo como cantor e, portanto, membro de um mundo privilegiado, foi o próprio alvo da sua sátira (“A canção de Jacky”, “O cavalo”).

No entanto, nestas canções Brel ainda mantém um fundo de simpatia ou compaixão para com os seus protagonistas. É por isso que as canções podem ser classificadas como satíricas e não furiosas (ver lista específica). Eu recomendo “A dama protectora” que tem uma deliciosa malícia subtil.

1. L'air de la bêtise

11. Les F...

2. À jeun

12. Les Flamandes

3. Les bigotes

13. La... la... la...

4. Les bonbons

14. Les moutons

5. Les bonbons 67

15. La parlote

6. Les bourgeois

16. Les singes

7. La chanson de Jacky

17. Les toros

8. Le cheval

 

9. La dame patronnesse

 

10. Le dernier repas

 

 

3- FURIOSA - TOPO DA PÁGINA

Um nível acima das canções satíricas, desde que consideremos a intensidade, a empatia e o drama, temos as canções que exprimem a raiva. Aqui Brel, com o uso de palavras especialmente severas - e escandalosas - para a época em que ele as escreveu, põe completamente a nu os seus próprios sentimentos e os comportamentos dos indivíduos que ele observa, criando assim, uma vez mais, retratos inimitáveis . Onde as suas canções dão o melhor de si mesmas é com toda a certeza no seu desempenho em cena, onde a expressividade de Brel atinge o seu auge absoluto: não é provavelmente por acaso que “Amsterdam” existe apenas em gravação Ao Vivo e, entre outras, “O seguinte”, em particular, adquire uma força que pode ser facilmente gerada num estúdio de gravação.

É precisamente por causa da especificidade tão  “breliana” deste tipo de canções que encontramos algumas das suas obras-primas absolutas “Amsterdam” e “Fernand”.  Eu recomendo especialmente “Fernand” que é realmente a quintessência de Brel.

1. Amsterdam

2. Au suivant

3. Ces gens-là

4. Fernand

5. Vieillir

 

4 - DOUCE FRANCE - TOPO DA PÁGINA

Com esta lista, vou talvez causar um incidente diplomático, visto que Brel era belga e que tenha sido designada por uma votação no final de 2005 como o maior belga de todos os tempos! Mas todos nós sabemos que Jacques Brel é considerado um dos mestres da canção francesa, seja porque a sua carreira musical teve lugar quase que inteiramente na França, seja porque ele foi sempre um artista de língua francesa . Além disso, os poucos artistas que podem ser considerados como fonte de inspiração, como Charles Trenet, por exemplo, era francês.

Com esta lista de escuta, gostaria de destacar as canções que, mais do que outras, transmitem esse aroma sonoro típico da França, pelo menos para os ouvidos de um italiano. E isso para mim é uma atmosfera geral de leveza e de luz, a utilização de instrumentos populares característicos como o acordeão, um ritmo rápido muitas vezes em crescendo, uma espécie de melodia reconhecível, mesmo em canções tristes, como por exemplo na canção “Jef “. Eu recomendo “Os nomes de Paris” graças à qual nos encontramos  instantaneamente na Ilha de Saint-Louis.

1. Au printemps

6. Jef

2. Les Flamandes

7. On n'oublie rien

3. La foire

8. Les prénoms de Paris

4. Le gaz

9. La valse à mille temps

5. Il y a

10. Vesoul

 

5 - A MORTE - TOPO DA PÁGINA

Na nossa sociedade moderna católico-consumista, a morte é o maior tabu, evento indescritível que devemos reprimir e ignorar, muito para lá do que pode ser uma convicção pessoal ou os processos íntimos de a aceitar e afrontar. Como é explicado por Philippe Ariès, o sexo foi substituído neste papel pela morte. Este último, que até uma década atrás foi o principal tabu, tornou-se um dos nossos bens de consumo essenciais. No entanto, a morte é frequentemente encontrada nos textos de Jacques Brel, não porque ele fosse um necrófilo ou, como muitos defendem, uma pessoa triste e deprimida. Brel falava simplesmente da vida em todos os seus aspectos e por isso era perfeitamente natural que falasse também da morte, que ele considerava, como nenhum outro, o episódio final da nossa existência, a única certeza que temos. Na realidade, Brel usou  frequentemente a morte, os funerais, as celebrações fúnebres, também como uma maneira simples de escarnecer dos vícios e da  hipocrisia dos vivos. Ele escreveu canções que, mesmo tendo o nome de « O moribundo » são 100% cheias de vida e alegria.

Se quisermos aprofundar mais este aparente interesse perverso de Jacques Brel para se confrontar com essa triste ceifeira, podemos também ler o ensaio intitulado « Arrivo ma voglio che rida si e balli. - J'arrive mais j'veux qu'on rit et j'veux qu'on danse", que eu, com a mesma aparente perversão, escrevi sobre o assunto, « baixando » o arquivo em formato pdf (548 KB) (em italiano - a tradução está em curso).

Quanto às canções, eu recomendo « Jojo », onde Brel liga a celebração da morte recente do seu grande amigo de toda uma vida, Georges Pasquier, ao presságio da sua própria morte já no horizonte e escreve uma poesia extraordinária e inesquecível.

1. La mort

6. Vieillir

2. J'arrive

7. Jojo

3. Le dernier repas

 

4. Tango funèbre

 

5. Le moribond

 

 

6 - ANTIMILITARISTA - TOPO DA PÁGINA

Uma parte do público da cena folk-rock americana identifica Jacques Brel como um autor antimilitarista principalmente por causa da tradução de « A Pomba », cantada por Joan Baez e Judy Collins e à introdução do musical « Jacques Brel Is Alive and Well and Living in Paris », com referências à paz universal e à guerra do Vietnam, através das traduções de « Quando não há mais que amor » , « A Estátua» feitas por Mort Shuman e Blau Eric.

Mas outras canções também estão dissimuladas no labirinto da discografia breliana como « Caporal Casse ponpon », « Zangra » e « Os macacos », nas quais a veia polémica se espalha com uma grande violência dialética, mas também com sarcasmo trocista contra as instituições militares. Quero enfatizar que o objectivo de Brel não é pregar o pacifismo como muitos fizeram na década de 60, mas principalmente para pôr em dia a hipocrisia, a desumanidade e a arrogância do poder militar. Encontramos, portanto, canções fortemente satíricas como « Zangra » e « Les singes – Os macacos » e outras onde a ironia é exibida com um carinho breliano (« Caporal Casse ponpon »), e outras, enfim, em que a linguagem é mais poética e dramática como « A Estátua ».

Se « Quando não há mais que amor » é a mais famosa das suas canções (especialmente na tradução « If We Only Have Love »), «  O seguinte » é uma das que maioritariamente têm contribuído para o prestígio de Brel como inventor de versos cruamente realistas, chocantes para a época em que foram escritos e cantados em público com uma paixão inimitável. Eu particularmente recomendo « Jaurès » que abre o perturbante último álbum de 1977 com a memória daquele que no passado lutou  por uma sociedade mais justa, com admirável simplicidade dos arranjos e do texto.

1. Au suivant

6. Quand on n'a que l'amour

2. Le caporal casse-pompon

7. Les singes

3. La colombe

8. La statue

4. Fernand

9. Zangra

5. Jaurès

 

 

7 – A TERNURA - TOPO DA PÁGINA

Este é um tema breliano por excelência tal como a estupidez. Este sentimento, que ele atribui mais fácilmente  aos membros do sexo masculino, mas é o vínculo que permite que ele seja parte da humanidade. Este sentimento, ele manifestou-o durante a sua vida com uma grande generosidade de coração e de espírito de que são testemunhas as pessoas que o conheciam. Conotado de maneira  extremamente positiva no imaginário breliano, ele define melhor as expectativas dos homens que das mulheres que, segundo ele, dão provas de paixão a mais. As canções com nomes masculinos contrastam com aquelas que carregam nomes femininos dado que ele exprime nestas últimas estados de espírito ou situações humilhantes e/ou frustrantes.

« Quando não há mais que amor », canção emblemática, é também a base para a imagem terna do Grand Jacques, cujas palavras são mais místicas e ecuménicas. Na versão inglesa de Shuman Blau, o afecto assume a forma de preocupação com os outros, a partilha da alegria e a urgência de um mundo utópico.

« A ternura» é mais voltada para a relação homem-mulher nesta perspectiva, ela acende com expressões românticas a necessidade de atenção e reconhecimento de que podem experimentar os ricos e os poderosos (homens) da parte das mulheres, apesar do seu poder.

« Ver um amigo chorar » e « Jef » falam sobre o desconforto que ele sente no desespero dos seus amigos, e do único poder que ele tem, a ternura, encorajadora e tranquila  e que proporcionar o consolo para as tragédias do mundo que ele não controla. Para esta última canção, a emoção é real, quase palpável nos espectáculos ao vivo.

« O seguinte » é o relato de uma vida « imperfeita » onde a visita a um bordel de um soldado imposta pelas autoridades militares, dolorosamente lembra a necessidade de ternura que sentimos em situações opressivas.

Eu recomendo «Vendo um amigo chorar» que é provavelmente o texto mais comovente e mais poético com uma melodia muito suave. (rg) 

1. Au suivant

4. La tendresse

2. La chanson des vieux amants

5. Quand on n'a que l'amour

3. Jef

6. Voir un ami pleurer

 

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