Jacques Brel, um poeta universal

 
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Página posta em dia em 23.05.2010

 

 

 

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Jacques Brel no mundo francófono

Com mais de 1.800 versões, os textos de Brel fazem parte do património musical francês e francófono. Além dos álbuns integralmente  dedicados a  canções  brelianas, os espectáculos  mais ou menos originais, estão a florescer. Digamo-lo sem rodeios, é sempre com entusiasmo que os artistas decidem confrontar-se com Brel. Devemos sobretudo lembrar, e é especialmente visível na selecção das músicas desses espectáculos, que Brel é reconhecido pela coerência do seu universo filosófico.

Por outro lado  nomes de álbuns não-francófonos como « O Mundo de Jacques Brel », « O Universo poético de Jacques » ou « Uma mensagem de Jacques Brel » são alguns dos títulos emblemáticos  usados em compilações ou álbuns  de versões dedicados ao grande belga.

 

Jacques Brel algures

Nos quatro cantos do globo, mais de 3.200 versões em língua estrangeira foram editadas. É evidentemente « Ne me quitte pas » que conheceu as primeiras honras de tradução, mas podemos dizer que  « Le moribond » é o outro grande  sucesso inegável de Brel fora da francofonia graças ao sucesso mundial da versão de Terry Jacks « Seasons In The Sun ». Lançado em 1974, a canção sofreu muitas adaptações nas línguas locais.

Foi a comédia musical, em 1969, « Jacques Brel is Alive and Well and Living in Paris », que abriu de forma mais ampla à obra  breliana  o mundo anglófono e ocidental, especialmente a África do Sul e a Suécia.

 

Porquê traduzir Brel?

Os intérpretes e/ou os tradutores de Brel que entrevistámos  ficaram impressionados com o autor por  razões muito diferentes: Srðan Depolo  encontra elementos da fé cristã, Denis Berezhnoy admira-o peolo seu lirismo, Des de Moor  a nostalgia das suas origens  familiares e Walter Di Gemma reteve os  temas satíricos já presentes na canção de cabaret  Milanesa e italiana.

 Brel escreveu mais do que uma obra estética, ele escreveu sobre o comportamento humano, alguns dizem a condição humana, e sobre as suas contradições, com um discurso tingido de ternura, humor e ferocidade. A sua obra transmite as mesmas preocupações existenciais desde as primeiras gravações e suavemente segue um caminho, uma reflexão sobre temas que se cruzam (o amor, a amizade, a infância, a morte especialmente), até ao seu desaparecimento. Traduzir Brel é traduzir esta coerência.

 

O tradutor é um traidor

É evidente que entre todas as traduções propostas aqui  um certo número está longe de respeitar o texto original, e nalgumas  vezes até utiliza-se a  música adicionando letras completamente diferentes. As traduções em inglês, incluindo as bem conhecidas de Rod McKuen são questionáveis quanto ao cumprimento texto breliano, ou seja, em especial, as que se tornaram  « standards » americanos como  « If You Go Away » (« Ne me quitte pas ») e « Seasons In The Sun » (« Le moribond ») que se derretem em bons sentimentos. Mort Shuman e Eric Blau também cometeram uma  blasfêmia aos olhos dos  puristas com « Marathon » (« Les Flamandes »)  porque o texto não tem nada a ver com a descrição psicosociológica que  Brel faz  dos  habitantes da sua terra natal. Ela torna-se uma história do mundo marcada pelo ritmo da  música original. Mas em sua defesa, temos de reconhecer que é difícil  com perfeição  transpor culturalmente o contexto social em que Brel evoluiu e, depois, para projectos comerciais é, por vezes, bom manter o politicamente correcto ou « ir na onda ».

 

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E Brel, que pensou ele?

Em 1969, durante uma entrevista à rádio RTL, Brel é convidado a ouvir algumas canções de « Jacques Brel is Alive and Well and Living in Paris ». Depois de ouvir pela primeira vez «Amsterdam», cantado por Mort Shuman, o jornalista perguntou o que é que ele pensava. Brel, que apenas recentemente conhecera o intérprete, que era, aliás, muito simpático, respondeu que a partir do momento em que uma canção tem uma versão numa língua estrangeira, já não é dele, é diferente. Ele mostrou indiferença, mas uma indiferença distante de desdém, com respeito às traduções, mesmo que tenha ouvido falar delas ou as tenha escutado. Elas não não lhe dizem nada tanto mais que ele reconhece, neste caso, mal dominar o Inglês. Além disso, neste momento, o Grand Jacques, está mais preocupado com a preparação da encenação de « O Homem da Mancha ». De facto, de pasagem por Nova Iorque nessa altura, ele nem sequer visitou a sala de especáculos, que apresentava a comédia musical.

Em 1974, ele concordou em fazer algumas aparições no filme de Denis Heroux adaptado do musical « Jacques Brel is Alive and Well and Living in Paris » para cantar « Ne me quitte pas », em francês, é claro.

Ele reconhece, no entanto, algum tempo depois ter algum orgulho ao ouvir suas composições cantadas por Frank Sinatra que ele muito admirava.

O impacto de Brel numa audiência estrangeira

A leitura de blogs não francófonos mostra que Brel sobretudo impressionou  vivamente os espítritos à primeira audição ou ao primeiro visionamento dada a sua capacidade de transmitir emoção. O impacto emocional levou o seu público a aprofundar os seus conhecimentos sobre os seus textos, ou pelo menos alguns deles, como o famoso « Ne me quitte pas ».

Apreciar  Brel, é assimilar uma série de textos, daí que alguns intérpretes têm procurado traduzir e cantar várias das suas canções num só álbum. Claro, é difícil ser Brel, transmitir emoção como ele fez, mas o essencial, parece-me residir no respeito ao progresso « filosófico », na história da sua vida, na partilha das suas ideias. E depois o Grand Jacques possui a arte de entretenimento, os seus orquestradores François Rauber, Gerard Jouannest e outros, que compuseram música popular que sabia, e ainda sabe, como a fascinar o público para que « os seguintes » saibam tornar a dar uma nova juventude a um desígnio que fala de vida, das pessoas e dos seus paradoxos.

Rodolphe GUILLO

Tradução em português - Sérgio Paixão - Janeiro de 2010