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Jacques Brel no mundo francófono
Com
mais de 1.800 versões, os textos de Brel fazem parte do património
musical francês e francófono. Além dos álbuns integralmente dedicados
a canções brelianas, os espectáculos mais ou menos
originais, estão a florescer. Digamo-lo sem rodeios, é sempre com
entusiasmo que os artistas decidem confrontar-se com Brel. Devemos
sobretudo lembrar, e é especialmente visível na selecção das músicas
desses espectáculos, que Brel é reconhecido pela coerência do seu
universo filosófico.
Por
outro lado nomes de álbuns não-francófonos como « O Mundo
de Jacques Brel », « O Universo poético de Jacques » ou
« Uma mensagem de Jacques Brel » são alguns dos títulos
emblemáticos usados em compilações ou álbuns de versões
dedicados ao grande belga.
Jacques Brel algures
Nos
quatro cantos do globo, mais de 3.200 versões em língua estrangeira
foram editadas. É evidentemente « Ne me quitte pas » que
conheceu as primeiras honras de tradução, mas podemos dizer que
« Le moribond » é o outro grande sucesso inegável de
Brel fora da francofonia graças ao sucesso mundial da versão de Terry
Jacks « Seasons In The Sun ». Lançado em 1974, a canção
sofreu muitas adaptações nas línguas locais.
Foi
a comédia musical, em 1969, « Jacques Brel is Alive and Well and
Living in Paris », que abriu de forma mais ampla à obra
breliana o mundo anglófono e ocidental, especialmente a África do
Sul e a Suécia.
Porquê traduzir Brel?
Os
intérpretes e/ou os tradutores de Brel que entrevistámos ficaram
impressionados com o autor por razões muito diferentes: Srðan
Depolo encontra elementos da fé cristã, Denis Berezhnoy admira-o
peolo seu lirismo, Des de Moor a nostalgia das suas origens
familiares e Walter Di Gemma reteve os temas satíricos já
presentes na canção de cabaret Milanesa e italiana.
Brel
escreveu mais do que uma obra estética, ele escreveu sobre o
comportamento humano, alguns dizem a condição humana, e sobre as suas
contradições, com um discurso tingido de ternura, humor e ferocidade. A
sua obra transmite as mesmas preocupações existenciais desde as
primeiras gravações e suavemente segue um caminho, uma reflexão sobre
temas que se cruzam (o amor, a amizade, a infância, a morte especialmente),
até ao seu desaparecimento. Traduzir Brel é traduzir esta coerência.
O tradutor é um traidor
É
evidente que entre todas as traduções propostas aqui um certo número
está longe de respeitar o texto original, e nalgumas vezes até
utiliza-se a música adicionando letras completamente diferentes. As
traduções em inglês, incluindo as bem conhecidas de Rod McKuen são
questionáveis quanto ao cumprimento texto breliano, ou seja, em especial,
as que se tornaram « standards » americanos como
« If You Go Away » (« Ne me quitte pas ») e
« Seasons In The Sun » (« Le moribond ») que se
derretem em bons sentimentos. Mort Shuman e Eric Blau também cometeram
uma blasfêmia aos olhos dos puristas com « Marathon »
(« Les Flamandes ») porque o texto não tem nada a ver
com a descrição psicosociológica que Brel faz dos habitantes
da sua terra natal. Ela torna-se uma história do mundo marcada pelo ritmo
da música original. Mas em sua defesa, temos de reconhecer que é
difícil com perfeição transpor culturalmente o contexto
social em que Brel evoluiu e, depois, para projectos comerciais é, por
vezes, bom manter o politicamente correcto ou « ir na onda ».
Em
1969, durante uma entrevista à rádio RTL, Brel é convidado a ouvir algumas
canções de « Jacques Brel is Alive and Well and Living in Paris ».
Depois de ouvir pela primeira vez «Amsterdam», cantado por Mort Shuman, o
jornalista perguntou o que é que ele pensava. Brel, que apenas recentemente
conhecera o intérprete, que era, aliás, muito simpático, respondeu que a
partir do momento em que uma canção tem uma versão numa língua estrangeira,
já não é dele, é diferente. Ele mostrou indiferença, mas uma indiferença
distante de desdém, com respeito às traduções, mesmo que tenha ouvido falar
delas ou as tenha escutado. Elas não não lhe dizem nada tanto mais que ele
reconhece, neste caso, mal dominar o Inglês. Além disso, neste momento, o
Grand Jacques, está mais preocupado com a preparação da encenação de
« O Homem da Mancha ». De facto, de pasagem por Nova Iorque nessa
altura, ele nem sequer visitou a sala de especáculos, que apresentava a comédia
musical.
Em
1974, ele concordou em fazer algumas aparições no filme de Denis Heroux
adaptado do musical « Jacques Brel is Alive and Well and Living in Paris »
para cantar « Ne me quitte pas », em francês, é claro.
Ele
reconhece, no entanto, algum tempo depois ter algum orgulho ao ouvir suas
composições cantadas por Frank Sinatra que ele muito admirava.
O impacto de Brel numa audiência estrangeira
A
leitura de blogs não francófonos mostra que Brel sobretudo impressionou vivamente
os espítritos à primeira audição ou ao primeiro visionamento dada a sua
capacidade de transmitir emoção. O impacto emocional levou o seu público a
aprofundar os seus conhecimentos sobre os seus textos, ou pelo menos alguns
deles, como o famoso « Ne me quitte pas ».
Apreciar
Brel, é assimilar uma série de textos, daí que alguns intérpretes têm
procurado traduzir e cantar várias das suas canções num só álbum. Claro, é
difícil ser Brel, transmitir emoção como ele fez, mas o essencial, parece-me
residir no respeito ao progresso « filosófico », na história da
sua vida, na partilha das suas ideias. E depois o Grand Jacques possui a arte de
entretenimento, os seus orquestradores François Rauber, Gerard Jouannest e
outros, que compuseram música popular que sabia, e ainda sabe, como a fascinar
o público para que « os seguintes » saibam tornar a dar uma nova
juventude a um desígnio que fala de vida, das pessoas e dos seus paradoxos.
Rodolphe
GUILLO
Tradução
em português - Sérgio Paixão - Janeiro de 2010